Carlos Prado*

A sigla MICE (Meetings, Incentives, Congress and Exhibitions) foi estabelecida há anos nos EUA e Europa. Sintetiza, por assim dizer, as quatro vertentes mais destacadas no conceito geral de evento corporativo. No Brasil, passou a ganhar relevância nos anos 90, na esteira do Plano Real e da internacionalização da economia. Ampliar a participação de mercado em âmbito global induziu o empresário brasileiro a viajar mais, muitas vezes para participar de eventos em outros países. Por outro lado, cresceu em volume e diversidade os eventos dentro do país, com foco no público local e, também, do exterior.

Os primeiros jobs que realizamos foram objeto de benchmark, referenciado em organizações norte-americanas. Até então, eu ficava incomodado quando funcionários de empresas clientes da Tour House manifestavam satisfação em haver participado de excelentes viagens de incentivos – sempre produzidas e fornecidas por organizações estrangeiras.

Conseguimos avançar, melhorar a massa crítica sobre o tema, mas o número de empresas especialistas em MICE ainda é pequeno. Nos EUA e Europa, existem empresas especialistas em cada segmento do Mice. Aqui, as que atuam em MICE querem fazer tudo, o que avilta a qualidade dos resultados.

Hoje dispomos de bons espaços para eventos em hotéis e centros de convenções, com destaque para o eixo Sul-Sudeste e algumas ilhas no Nordeste. No entanto, o nivelamento da oferta sob a métrica da excelência requer investimentos. De um lado, é preciso turbinar os meios de formação da mão de obra qualificada. Capacitar, treinar e automatizar processos. De outro, reduzir as deficiências em segurança, que inibem a escolha deste ou daquele destino, mesmo que bem dotado de infraestrutura.

Integram o segmento MICE as viagens de incentivo, que exigem know-how, planejamento e campanha não inferior a seis meses. Quem fornece o programa completo visa alcançar o resultado financeiro projetado. E o cliente quer o sucesso do empreendimento, sob todos os aspectos.   O essencial é fazer os participantes se sentirem reis, os grandes conquistadores das metas estabelecidas pela empresa. Proporcionar a eles o conhecimento de novas culturas.

A escolha do destino é determinante – ele tem de ser o que melhor representa o grupo que viajará. Pesquisas apontam que uma viagem de incentivo fica latente na memória do participante de 8 a 10 anos. A Tour House tem inúmeros projetos em seu portfólio, que constituem registro valioso de experiências. Certa feita, fiquei muito impressionado com o depoimento de um grande empresário do ramo automobilístico, que sentenciou: “Viagens comuns, faço com meu Jato. Mas viagens incríveis, fazemos com a montadora”.

A realização de eventos impacta positivamente a economia local. Movimenta centenas de fornecedores, mesmo que dentro de um hotel, que já tem boa estrutura.  Mexe com o dia-dia da localidade, impulsiona toda a economia. Além de hotéis, transporte aéreo e transfers, eleva a receita de restaurantes, postos de combustíveis e lojas.

Por outro lado, o segmento MICE contribui para o equilíbrio de ocupação dos hotéis na alta e baixa temporada. O calendário de eventos de MICE se concentra nos meses de menor procura a lazer. É provável que essa realidade se modifique no futuro, porque as pessoas sem filhos pequenos já estão preparando suas viagens fora dos meses dezembro, janeiro e Julho.   Com isso, o segmento MICE ganhará mais espaços no calendário.

O fato de haver, hoje, centros de convenções subutilizados no Brasil, é uma pena.  Basta tornar o país mais atraente em segurança e qualidade de serviços.  Poderíamos ser o Centro de Negócios da América Latina, caso o custo Brasil fosse reduzido e nos tornasse mais competitivos. Seria muito bom transformar o Ceará e RN em uma grande Riviera Brasileira, pela localização mais próxima da Europa e da Costa Leste Americana.

A realização dos megaeventos Copa do Mundo 2014 e Olimpíada 2016 são exemplos de sucesso. Porém, considero baixo o residual para o segmento MICE e para a indústria como um todo. Ainda somos pouco competitivos em relação ao Caribe, por exemplo, que tem bons preços, está mais próximo dos mercados norte-americano e canadense e apresenta taxa de segurança elevada. Some-se a isso a divulgação ainda pífia do Brasil no exterior. Eventos se tornam rentáveis quando contratados para quatro, cinco ou mais edições. Eu participo da mesma convenção no exterior por mais de 10 anos e sempre no mesmo local. 

*Carlos Prado é diretor-presidente da Tour House e vice-presidente do Conselho de Administração da Abracorp

Carlos Prado, diretor-presidente da Tour House e vice-presidente do Conselho de Administração da Abracorp
Carlos Prado, diretor-presidente da Tour House e vice-presidente do Conselho de Administração da Abracorp